26 – Preceitos claros dos deveres do Estado no regime corporativo, há-os portanto? – Não está ainda assente a posição do Estado em tais problemas, disse Salazar. Sua Excelência todavia não deixou já de marcar um programa económico, de iniciativas fecundas, paralelo ao de uma grande compreensão do social: O Estado no regime corporativo, como Todo o Mundo não deve ignorar, deve, pois, «criar condições de produção interna e condições de expansão externa, não deve haver regressões em nada, mas ao contrário haver em tudo melhorias e progresso, partindo-se em todos os assuntos da realidade viva, económica, social, moral, política da Nação». Eis aqui palavras preciosas, que nem sempre tem presentes Todo o Mundo que por aí opina, delibera, realiza, de fora e adentro dos próprios organismos corporativos. Esse Todo o Mundo, que, mesmo quando se chama corporativista, continua a pensar à liberal – quási sempre à liberal, diga-se.
27 - «Quási sempre à liberal»? – De facto, a organização corporativa é, entre nós, mais prejudicada pelas reminiscências de doutrinas liberais, que pelas influências socializantes. Chega, mesmo, a haver por aí certa fobia socialista, que não vê que nem tudo quanto há ou aparece no socialismo é mau, pela simples razão de que nem sequer lhe pertence. É apanhado por vezes do próprio Sermão da Montanha. A educação «liberal» é mais renitente, no seu individualismo, na sua oposição crónica dos indivíduos uns aos outros, de indivíduos ao Estado, do Estado aos indivíduos; tudo isto acompanhado de uma terminologia, que faz ver em certos elementos as «forças vivas», noutros «os trabalhadores», etc. etc.; terminologia de que não nos livraremos tão cedo, mesmo os mais prevenidos, e que, parecendo que não, anquilosa-nos qualquer coisa a palavra, o pensamento e a acção.
Deve pois repetir-se diariamente a Todo o Mundo o que Ninguém sabe: Em regime corporativo não pode haver legítimos interesses contra o interesse geral. Deve aqui dizer-se, ensinar-se, repetir-se sempre, a Todo o Mundo, que foi educado a julgar que pode e deve fazer o que quiser: Que todos os factos políticos, económicos e sociais, acabam nos tempos de hoje por adquirir, por assim dizer, o carácter de públicos. Isto é afogar o indivíduo, o particular? – Não, por amor de Deus. É uma prática que temos de seguir, como se fosse essa a teoria. E, seguindo-a voluntariamente, já não somos compelidos. É afinal um imperativo categórico, tão forte como o de Kant; deriva da autêntica lei moral. Devemo-nos aos outros, portanto à Comunidade, política, económica, social, moralmente. Os nossos actos, por mais insignificantes que sejam, reflectem-se na Comunidade. E a Comunidade mais perfeita será portanto aquela, em que o indivíduo mais se compenetrar nos reflexos na colectividade de todos os seus actos particulares e melhor obedecer em todos eles à lei natural da cooperação pacífica e do esforço harmónico. Só assim chegaremos à Nação unidade moral, política e económica. Só assim o indivíduo sentirá por fim os seus interesses conciliados com os da Comunidade e, em vez de pedir ao Estado uma liberdade gratuita para fazer ou deixar de fazer – que tem o seu protótipo ideal, não no céu de Platão, mas na floresta virgem, ao contacto com as feras – ele aspirará construtivamente, conscientemente, à garantia sólida duma liberdade política, económica, social e moral, para melhor servir, com todos os recursos da sua personalidade, a grande Comunidade. Que grande indivíduo está na base da grande Comunidade Corporativa!
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (27)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – SEGUNDA SABATINA – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943