32 – No entanto, leitor de boa fé destes Cadernos, é preciso que nos lembremos de que estamos em guerra por esse mundo fora, da qual nos tem livrado por enquanto a obra habilíssima de Salazar ao leme da nossa governação internacional. Das suas consequências, dos seus reflexos económicos é que não pode livrar-nos, demais a mais desajudado por Todo o Mundo, que és capaz de ser tu, próprio leitor proletário, se também tu andas para aí a açambarcar egoisticamente para a tua despensa tanta e tanta coisa que, bem dividida, chegaria a todos e não daria lugar às bichas que muito ofendem a tua pseudo-sensibilidade… Sim, porque o culpado dessas bichas és tu, que tens em casa mais do que te é necessário para as tuas necessidades imediatas. O Governo, as Autoridades procuram incontestavelmente abastecer o mercado. E tu, açambarcador doméstico, pior que o armazenistas ou o retalhista, é quem lança também neste maquinismo destruidor o grãozinho que tudo emperra. Salazar denunciou-te, não somos apenas nós. Apenas a tua consciência pode persistir em ser elástica, não te acusando, não te envergonhando de tão hediondo egoísmo, causador de tantos males na saúde física e moral dos teus irmãos. Há por ventura o direito de que em tempos como os de hoje, em que a fome é negra, negríssima em toda a Europa, um cidadão nosso queira escapar às escassez, queira fazer casa e ande por aí a propagandear a falência do sistema, a cujos rudimentares princípios ele falta nesta contingência, quando devera esforçar-se por ajudar, com maior dedicação ainda, ao êxito da doutrina?... É bem este um dos casos, em que o Estado tem de deixar de contemporizar com aproximações à linha dos egoísmos, mas, sim, de actuar com energia. E com autoridade moral, obrigando os seus agentes ou servidores a mostrar calma, desinteresse e isenção. Só assim se pode ser acreditado e seguido.
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (30)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – SEGUNDA SABATINA – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943