SEGUNDA SABATINA
Sumário das perguntas, críticas e reservas, a que responde:
Pode Todo o Mundo pedir ao Corporativismo receitas para «resolver a questão social» ? O Corporativismo é panaceia? Doutrina providencial, oportunista, para-raios duns, disfarce doutros? É mera doutrina negativa? O Corporativismo vem calcar, anular o indivíduo? Há legítimos interesses contra o interesse geral? Não tem o Estado de ser forte, visto que tem de regular e coordenar superiormente a vida política, económica, social e moral da Nação? Como aprecia o Corporativismo a riqueza? Como vê os problemas do trabalho e do salário? Há o direito de, nos tempos de hoje, alguém querer escapar, não já à fome, mas à própria escassez, propagandeando, por factos inevitáveis da hora presente, a falência do sistema corporativo? Não deve antes cada um ajudar com a maior dedicação ao êxito da doutrina? Porque há-de Todo o Mundo impedir que a nossa vida económica e social passe a ser diferente da anterior ao Estatuto do Trabalho Nacional? Porque não havemos todos de fixar a sério os princípios sãos do Corporativismo? Vimos pregar Moral? Moral assente em que princípios?
22 – Pode Todo o Mundo pedir ao Corporativismo receitas para «resolver a questão social», como o deseja, e o julga possível a uma só geração, muito do inútil que por aí flaneia e se senta à mesa dos cafés e das tertúlias?
- Não. Não pode pedir-se tal coisa. E um dos males do nosso tempo está também nisso: em se pedir a lua. A questão social não tem essa fácil solução apetecida e sonhada por tais primitivos. Tem desiderata próximos e distantes. Os próximos, modestos, modestíssimos. Quanto aos distantes visionamo-los, procuramos orientar para a sua solução o nosso trabalho com a nossa aspiração de cada dia; ensinamos nesse mesmo trabalho e nessa mesma aspiração os nossos filhos, partindo do princípio de que, quanto mais soubermos sacrificar do bem de nós próprios, mais teremos andado para aproximar de nós esse bem dos vindouros. O Corporativismo não é apenas uma doutrina anti-individualista, é uma doutrina altruísta.
23- Doutrina panaceia providencial, oportunista, para-raios duns, disfarce doutros? Todo o Mundo o não creia. Ninguém pode dizê-lo: Providencial, como sinónimo de feliz, oportuno, mas não oportunista; para-raios nunca; disfarce ainda menos. Feliz e oportuno porquê? – Porque nos chegou como fenómeno do nosso tempo, ao fim duma evolução concluída dos sistemas que o precederam, política e economicamente; porque tem dentro um grande conteúdo histórico e político e à sua experiência podemos portanto pedir as normas dum sistema político, económico, social e moral, adequado à necessidades de hoje. Assim saiba Todo o Mundo ser vivo e actual, não procurando a vida e a sua Actualidade do século XX nas do que não diremos o «estúpido» século XIX, que nos deu coisas maravilhosas na ciência, na técnica, na indústria, mas que andou muito na lua, nestes assuntos político-sociais. Acreditou na igualdade dos homens sob o aspecto apenas político. Cometeu, pelo menos, o erro de se julgar definitivo. Como se neste mundo de Fortuna vária houvesse alguma coisa de definitivo, além da Virtude, a que num sermão célebre aludiu Silveira Malhão, nas exéquias dum homem do seu tempo, o conde de Barcelona, a quem na adversidade o mundo abandonou…
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (25)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – SEGUNDA SABATINA – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943