UM TESOURO DE HISTÓRIA E CULTURA
(Discurso pronunciado em Lisboa, no acto de posse do Governador-Geral do Estado da Índia, em 3 de Novembro de 1952)
Nas poucas palavras que vou dizer, possivelmente irei repetir conceitos e ideias que em outras ocasiões porventura já devo ter publicamente expressado. E isto por dois motivos. Primeiro porque nos deveres do meu cargo sou levado a fazer declarações e a proferir discursos que, embora convenientes e necessários, não estariam dentro da minha natural propensão, se não correspondesse à exteriorização indispensável das múltiplas e complexas actividades deste Ministério. Eu próprio, que sinto e sofro o peso da tarefa imensa que dia após dia e num crescendo constante se impõe a todos os que servem o Ultramar e assistem ao seu prodigioso movimento de progresso - eu próprio me surpreendo e me preocupo com esta servidão inevitável, e por vezes penosa, sobretudo para quem levou a sua vida a agir sem palavras e a trabalhar em silêncio e sem alardes. Não é, portanto, uma vocação, mas sim uma imperiosa necessidade. E por isso não será de estranhar, a quem não pode ter presente tudo o que já disse, que uma vez por outra repita pontos de vista anteriormente emitidos.
Por outro lado - e este é o segundo motivo - nunca é demais repisar princípios que a nossa consciência formou e que, por serem de importância fundamental, convém ter sempre na lembrança.
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Mal iria ao Ministro e às responsabilidades que tomou se nas suas mãos quisesse concentrar e decidir a vastidão dos problemas que diariamente se levantam por essas províncias além e que reclamam uma pronta e imediata solução. Mal iria ao Governador e aos interesses que lhe foram confiados se não soubesse tomar sobre si as duras tarefas que constituem a administração quotidiana da sua província.
E assim, cada qual no seu posto: o Governador dentro da orientação fixada, estará certo do apoio do Governo; e o Ministro, tendo na confiança que deposita no Governador a melhor garantia de uma boa administração.
Donde se terá de concluir que um dos maiores benefícios que se podem conceder às províncias ultramarinas é a escolha dos homens que as hão-de governar. E se isto já é inteira e absolutamente verdadeiro no que respeita a governadores subalternos, ressalta em toda a evidência, mesmo para aqueles que se não embrenham nos negócios do Ultramar, quando se trate dos governadores das Províncias Ultramarinas.
Eis porque a sua nomeação é um problema de primeira plana.
Na verdade, um Governador do Ultramar, dada a complexidade e a vastidão das suas atribuições, que abrangem todos os sectores da vida de um povo, é um verdadeiro chefe de governo e reúne nas suas mãos funções que numa metrópole se repartem por diversas pastas. Nada escapa ao seu cuidado. Não há qualidade de que não precise.
Nele contemplam os povos que governa o símbolo da soberania nacional, da qual naturalmente dimanam a autoridade, a justiça e a protecção. Nele se hão-de reflectir as virtudes superiores da Nação, das quais será modelo vivo e exemplo constante.
Tão altas responsabilidades só pode bem satisfazê-las quem tenha especiais atributos. Além da capacidade intelectual e moral indispensável, impõe-se a um governante, como condição primeira do êxito, amar o povo cujos destinos lhe foram confiados. E, para tanto, necessita conhecê-lo. Como consequência, a sua acção será tanto mais proveitosa quanto maior for a experiência havida, dos homens e dos seus problemas e, sendo possível, da própria gestão dos negócios públicos.
Foi sob a influência deste condicionamento que o nome de Vossa Excelência surgiu. O seu passado de militar distinto e pundonoroso, de homem de bem e de prudência, a longa experiência adquirida nos meios ultramarinos, e muito especialmente na Índia, onde já deu as melhores provas da sua capacidade administrativa, são promessas e são garantias.
Não posso deixar de sublinhar a forma como Vossa Excelência acolheu a chamada que lhe foi feita. Ao convite do Governo respondeu como um soldado, sem uma hesitação, sem uma dúvida, sem uma objecção. É isto, para mim, um motivo de confiança. Quem tem a consciência de nunca ter mendigado um posto de comando; aqueles que como nós não solicitaram - e por ventura nem sequer desejaram - os lugares de administração que lhes couberam; os que na vida militar aprenderam a servir e para servir não escolhem nem preferem - também não sabem recusar todo o sacrifício que o seu dever lhes impunha. Não pedem, nem se negam.
(Continua)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (14)
UM TESOURO DE HISTÓRIA E CULTURA (Discurso pronunciado em Lisboa, no acto de posse do Governador-Geral do Estado da Índia, em 3 de Novembro de 1952), pelo capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar – 1954