TODO O MUNDO
Mas tal disciplina representa uma opressão…
NINGUÉM
Sem dúvida, se não te libertares tu próprio das regras amorais da Economia do século passado, que te mandou enriquecer e que esperou da liberdade, económica, como política, a felicidade geral. Mas, se pensares em que estamos chegados ao tal ponto da linha dos egoísmos, em que o teu egoísmo te manda olhar e ver, crer e compreender, tu verás que em tal disciplina está a tua salvação. Dás, pelo menos, o que não podes haver. Quando para uns o comer se torna difícil, torna-se não menos difícil para os outros o digerir…
TODO O MUNDO
E a minha riqueza?
NINGUÉM
É legítima, se fruto do teu trabalho ou do de alguém que dele te fez o herdeiro ou beneficiário. Legítima ainda, quando a mantenhas socialmente útil, isto é, útil à Comunidade, à qual deves o teu esforço para a progressiva elevação do nível da cultura e do bem estar económico, social e moral da Nação, revigorada na raça, na educação, na moralização, nas condições da vida material, na segurança e coesão das famílias, na afirmação humana e transcendente do indivíduo. Estás vendo que deve representar mais alguma coisa que o somatório de números de depósitos nos bancos e de altas de valores, a fazerem as delícias dos leitores das cotações das bolsas…
TODO O MUNDO
Com respeito pelos valores da Nação?
NINGUÉM
Sim, sem igualdades niveladoras pelo mais baixo que, na sua casa, na sua indústria, favorece, por exemplo, todo aquele que não sabe dar o valor aos seus empregados. Por isso, o Corporativismo admite que, sendo o trabalho em qualquer das suas formas: intelectual, manual, etc., igualmente digno sob o ponto de vista humano, não pode ter todavia o mesmo valor económico. Utilidades diferentes, rendimentos diferentes, não podem ter a mesma remuneração. O que é preciso é que todo o trabalho tenha direito a um salário mínimo para o seu sustento e para o da sua família, com humana dignidade. E tudo, sem se desprezar o trabalho ou o trabalhador manual, nem se aviltar o trabalho ou o trabalhador intelectual.
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (41)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – TERCEIRA SABATINA – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943