17 – No entanto Todo o Mundo abre por aí a boca à mesa dos cafés, ao balcão das casas do Abel Pereira da Fonseca e similares, para nos azoinar os ouvidos com a falência do Corporativismo. Falência porque? Ninguém pode perguntar: é porventura menos verdade que o Corporativismo, fenómeno político, económico, social, moral do nosso tempo, como tal se impõe na política, na economia, na vida social de toda a Nação? É porventura menos verdade que o Corporativismo, suprimindo a luta de partidos, a luta de classes, favorecendo a aproximação do homem para o homem, na família, na profissão, na vida nacional, favorece a paz social? É porventura menos verdade que veio impor a patrões e a empregados ou operários novos conceitos do trabalho e do seu dever social? Pode negar-se que procura dia a dia efectivar praticamente a solidariedade entre o capital e o trabalho, a bem dos superiores interesses da Nação? Menos verdade que abate essas barreiras de interesses opostos de Estado, de indivíduo, de patronato, de operário, etc., dando a todos esses interesses uma unidade incontestável e prestigiando a todos no quadro de valores da Nação?
18 – Há muito a fazer… Mas quem o nega? Salazar nos autoriza a dizer algum mal da organização. O maior mal porém está, e repetimos sempre, nas pessoas dos seus executantes, que são Todo o Mundo precisamente. Todo o Mundo que, em relação à organização moral da economia, do trabalho, toma por aí todas as atitudes possíveis do velho regime: incompreensão, hostilidade, indiferença pelo menos. Aí e Todo o Mundo não é inimigo de fora, está dentro, muito dentro dos baluartes, inclusivamente sob a capa dos que «continuam a pensar à liberal ou à socialista», mesmo quando arvoram a bandeira do Corporativismo nos cortejos ou nas recepções.
19 – Que é o espírito Corporativo? – O espírito de servir, que deve presidir à vida corporativa, à vida das Corporações, à vida na Corporação. É qualquer coisa mais que o adjectivo «corporativo», que anda por aí a epitetar grupos futebolistas e doutros desportos, por uma tendência de extensão que devia ser um nadinha coibida, diga-se também… Que não teríamos nós rido há trinta anos, se um grupo desportivo aí tivesse aparecido a falar-nos em «campeonatos republicanos», lá porque o team dum grupo republicano saía em público a esmurrar narizes ou a pregar caneladas aos aderentes doutro team?...
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (23)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – PRIMEIRA SABATINA – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943