CADERNOS CORPORATIVOS
Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro
INTRODUÇÃO
Sumário das perguntas, críticas e reservas, a que responde:
Chegámos a interessar algum leitor? Há muita gente que não quer ouvir-nos? Que doutrina é então a nossa? São assim tantos os inimigos do Corporativismo? A nossa doutrina está amadurecida? Basta, para se ser servidor duma causa, não lhe ser hostil? Quem é TODO O MUNDO?
1 – O pequenino programa duma série de alguns Cadernos da vulgarização da doutrina corporativa portuguesa completa-se agora com a publicação deste quarto caderno, a que demos o título de «Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro», depois de havermos com a nossa intuição, estudo e boa vontade, tentado dar ao leitor de cada um dos outros um «Ensaio dum Catecismo Corporativo», como comentário que não nos pareceu desassisados da «Cartilha do Corporativismo»; uns «Diálogos Fáceis sobre a Economia Corporativa, Moral e Humana», em que fizemos avultar o carácter da Economia moral da troca de serviços, que tem de ser vincado especialmente na Economia Corporativa; umas «Quatro Epístolas a Vária Gente sobre a Organização Corporativa da Nação», que deveram ser quatro desabafos contra a incompreensão da doutrina: – por parte da gente grada, que houvera de ser a sua primeira impulsionadora; por parte da gente dos Grémios que não há maneira de entender que um Grémio não é precisamente um sucedâneo da velha Associação de Classe; por parte da gente dos Sindicatos, que tampouco despe a indumentária do antigo sindicalismo revolucionário. Quanto à gente nova, para a qual apelámos, foi ele porventura o mais inútil doa apelos.
A melhor dela continua narcisamente fora de todo o campo do chamado social.
2 – Assim procurámos oferecer, honesta, desinteressada, entusiasticamente, a nossa contribuição para a propaganda eficaz do ideal corporativo português, na sua política de união nacional; na sua economia moral e humana; nas suas concepções sociais de justiça e de paz; na sua moral estruturalmente cristã. Isto é, um conteúdo. Ai de nós! Chegámos a interessar algum leitor, dos que carecem de conhecer os princípios da doutrina, designadamente nos seus aspectos económico e social?
3 – Há em Portugal um fenómeno tristíssimo que não podemos deixar de vincar para sermos verdadeiros: as pessoas que se interessam pelo estudo das coisas são quase sempre as que dele menos carecem. Os primeiros aderentes, os primeiros interessados são pois, quase sempre, os que das coisas sabem tanto como nós ou mais do que nós e que uma simpatia de pensamentos e de obras leva a procurar o nosso contacto. Os que na nossa propaganda queremos atingir, chamar, que da nossa palavra carecem, continuam surdos a quanto lhes dizemos; surdos teimosos como aqueles, de quem Cristo já se queixava há dois mil anos: os piores de todos, os que não querem ouvir.
4 – Há muita gente que não quer ouvir-nos? Que doutrina é então a nossa, que afugenta as massas, que não ganha prosélitos? – Não, a doutrina confessam alguns que é boa, mas na teoria. Na prática é contrária à natureza humana. Esta natureza humana, querem eles dizer na sua, é o egoísmo humano. Bem nos diz Salazar que, quando queremos falar ao jeito a alguém, temos de fazê-lo na linha cómoda dos egoísmos.
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5 – E são assim tantos os inimigos do Corporativismo? – não o faz supor o mar de cabeças acumuladas nas manifestações a Salazar; a concorrência às urnas duns oitenta ou noventa por cento do eleitorado; o retrato de Salazar em todos os Grémios, a sua proclamação de sócio n.º 1 de todos os Sindicatos.
6 – Não, mas a verdade é que, conforme já salientámos no nosso terceiro Caderno, nas doutrinas como a nossa, quando em verde fase de propaganda de realizações futuras, quem não é contra nós é já por nós. Assim se viu na propaganda republicana que em 1910 subverteu um regime sete vezes secular. Mas, nas doutrinas que se consideram triunfantes, que se pregam das cadeiras do Poder, que, já amadurecidas, procuram ser realizações, quem não é por nós é contra nós.
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7 – E a nossa doutrina está amadurecida? Chega realmente a parecer que não, porque não nos escasseiam por aí os sinais da sua absoluta incompreensão por parte de quem devera já estar-lhe de posse do espírito, para chegar à técnica. A observação desse facto nos levou ao tentame das Epístolas do nosso cadernos anterior, que todos acharam muito bem, encarapuçando-as todavia na cabeça do vizinho.
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8 – Salazar continua: «A falta de um e da outra descobre-as algumas vezes o observador atento e não só de um lado como de ambos. Se os dirigentes dos Grémios supusessem que a Organização Corporativa devia converter-se em cartel da produção e estivessem convencidos de que, se existe, é para garantir a colocação dos produtos, firmar os preços, assegurar os lucros da exploração, embora destes s houvessem de distribuir migalhas como prémio de seguro pelos trabalhadores, esses tais estariam muito longe do espírito corporativo.
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9 – Não, não basta, para se ser um bom servidor duma doutrina, não lhe ser hostil, é preciso ser-lhe dedicado. Obedecer-lhe pelo menos lealmente, de boa vontade. Já o Dante na sua Divina Comédia, punha no Inferno e no Purgatório, não apenas os que pecaram mais ou menos gravemente contra Deus, mas os que neste mundo não fizeram todo o bem que podiam ter feito. E o nosso Gil Vicente, no seu Auto da Barca do Inferno, lá mandava para a barca fatal, não apenas o fidalgo que por cá vivia a seu prazer, muito descuidado da outra vida, mas também um usurário, um sapateiro, um corregedor, uma alcoviteira, que, a ouvi-los, ninguém os tomaria por pecadores dignos das penas infernais … Todos se julgavam uns santinhos…
10 – E afinal, já no tempo de Gil Vicente, em matéria de benesses e de sacrifícios, Todo o Mundo optava pelas primeiras; Ninguém pelos segundos. Quem era esta Todo o Mundo? Era um sujeito bem instalado na vida, como sempre os houve em todos os tempos. Todo o Mundo (este o seu autêntico nome) era, pois, mentiroso, lisonjeiro, queria moedas como hoje quer notas; queria honras, vida, paraíso na terra como agora; e assim se apresentava no Auto da Lusitânia:
Eu hei nome Todo o Mundo.
E o meu tempo todo inteiro
Sempre á buscar dinheiro.
E sempre nisto me fundo.
A outra personagem do Mestre Gil já sabemos que se chamava Ninguém. E bem lhe quadrava o nome, porque só Ninguém podia dizer que aceitava sacrifícios, que falava verdade e desenganava, pedindo consciência, virtude e morte. E Ninguém se apresentava, pois, de tal modo:
Eu hei nome Ninguém
e busco a consciência.
11 – Por isso Berzebu (ou Belzebu como dizemos hoje) podia maliciosamente jogar com as palavras e com os seus apresentados:
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12 – Pois, leitor, entre os inimigos do Corporativismo, claros e ocultos, de fora e de dentro, anda por aí autenticamente Todo o Mundo, na encarnação da mesma ânsia de bem viver, de bem gozar, de bem desfrutar o próximo, com a mesma falta de escrúpulos da personagem vicentina, nesta terra e neste tempo em que Ninguém se interessa pelos princípios e finalidades do Corporativismo, prestando-lhe adesão e finalidade à doutrina, observância à ética, dedicação à obra… Ninguém, que o mesmo é dizer, eu e tu, cândido leitor. Venham, pois, as Sabatinas entre Todo o Mundo e Ninguém. E falemos como Ninguém, para que Todo o Mundo nos ouça.
(Continua)
O CORPORATIVISMO PORTUGUÊS (20)
Cadernos Corporativos - Sabatinas com os Inimigos do Corporativismo, Claros e Ocultos, de Fora e de Dentro – INTRODUÇÃO – por António Ribeiro da Silva e Sousa (Sidónio Miguel). Edição do Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório dos Serviços de Navegação – Lisboa - 1943