O ASSALTO A DADRÁ
(Discurso proferido em 23 de Julho de 1954, durante a manifestação dos funcionários do Ministério do Ultramar)
É natural que todos os que dedicaram a sua vida ao serviço do Ultramar, ou que nas províncias ultramarinas serviram e sobretudo nessa nobre terra da Índia, tão cheia de tradições e tão rica em valores morais e humanos, sintam neste momento, em que vibra emocionada a alma de todos os portugueses, uma redobrada mágoa e revolta. O assalto de que acaba de ser vítima a pequena aldeia de Dadrá, inteiramente encravada na União Indiana e sem tropas para a defender, revela bem claramente a categoria moral dos assaltantes.
Naquele minúsculo território havia apenas alguns agentes de Polícia, encarregados de manter a ordem, como é habitual. O resto, são cidadãos modestos, agricultores humildes e inteiramente desarmados. Apesar disso, contrataram os nossos inimigos grande número de mercenários, pagos a soldo e acobertados pela protecção das autoridades e de forças militares da União Indiana, que começaram por isolar os territórios de Damão e Nagar-Aveli, não permitindo a passagem de pessoas, abrindo escavações e cortando a estrada com valas, que militares guardavam. Um forte cordão de infantaria marata cercava as nossas fronteiras.
Todos estes preparativos guerreiros serviam para ser atacada e subjugada por pretensos voluntários a pequena aldeia portuguesa de Dadrá. Mas nem por isso os inimigos da soberania portuguesa deixaram de sentir a repulsa da população de Dadrá, que lhes opôs toda a resistência que lhe era possível e que infelizmente se traduziu, segundo as informações, na morte de um subchefe de polícia e de um guarda, e causou também a morte de um invasor e ferimento de outros. Sabemos o nome de um dos honrados defensores de Dadrá, que caiu morto no seu porto: era o subchefe Aniceto do Rosário, nascido na heróica cidade de Dio. Estes dois soldados portugueses, naturais da Índia, que tinham consigo a dupla responsabilidade de manter intactas as tradições da sua Pátria e as da história gloriosa da Índia Portuguesa, souberam, pelo sacrifício de suas vidas, mostrar ao Mundo o seu valor e desmascarar a falsidade dessa libertação cinicamente invocada pelos assaltantes.
Estes não foram libertar os pacíficos habitantes de Dadrá: foram matar os que se atravessassem no seu caminho e lhes pudessem resistir.
Perante este inqualificável procedimento, o Governo português, digno nos seus processos e firme nas suas resoluções, sobretudo quando envolvem a honra e a dignidade da Nação, tem o direito de reclamar que o Governo da União Indiana não se solidarize com os invasores, deixe de prestar-lhes apoio e que, pelo contrário e dentro das mais elementares normas de direito internacional que regulam as relações entre os povos civilizados e verdadeiramente amantes da paz, permita o acesso das autoridades de Damão e Dadrá, para restabelecimento da ordem e dos nossos direitos subvertidos.
Daqui enviamos aos nossos irmãos da Índia – em Goa, em Damão e em Dio – a nossa vibrante afirmação da mais absoluta solidariedade neste momento tão doloroso para todos os portugueses.
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (17)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA – O ASSALTO A DADRÁ (Discurso proferido em 23 de Julho de 1954, durante a manifestação dos funcionários do Ministério do Ultramar) pelo Capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues - Ministério do Ultramar – 1954